terça-feira, novembro 14, 2006

ASDFG

O acesso à tecnologia foi um dos assuntos abordados na última aula do professor André. Ele chegou a citar, como exemplo, a filha de oito anos que tem grande afinidade com a Internet e o celular ao mesmo tempo em que comparou a infância dela com a nossa e a minha, já vai um pouco longe...

Quando tinha dez anos meu pai dizia que para ser alguém na vida era preciso saber datilografar. Então fui à escola de datilografia próxima à minha casa e me matriculei. A professora era uma jovem senhora que, se não me falha a memória, se chamava Maria. Era a melhor datilógrafa que existia em Santana, bairro da zona norte de São José dos Campos (SP).

Estava ansioso pela primeira aula. A sala era pequena com várias máquinas, algumas bem velhas. Mas o objetivo dos alunos era a Olivetti elétrica, exposta como um troféu, num canto bem visível. Ela só era liberada no final do curso de seis meses, quando o aluno já sabia datilografar com todos os dedos, sem olhar para o teclado.

No horário escolhido por mim, todas as máquinas ficavam ocupadas. Era o máximo o som daquelas hastes de ferro com letrinhas nas pontas, batendo no papel, afixado sobre um rolo de borracha (preto) e preso por uma espécie de régua de metal. Tinha uma menina que tocava piano e parecia ter mais facilidade do que eu.

Primeiro aprendi a colocar o papel, me pareceu tão fácil... Mas depois ficou complicado. Dona Maria posicionou os meus dedos sobre aquelas teclas com as letras do alfabeto, pontuação gráfica e números. Tinha muito que aprender para ser alguém na vida. Eu estava apenas começando.

As letras eu conhecia então seria fácil escrever uma palavra se ela não tivesse colocado sobre a máquina uma lâmina de papelão, para cobrir as minhas mãos e as letrinhas. Diante dos meus olhos arregalados por não saber o que mais iria acontecer ela disse: Utilize todos os dedos da mão esquerda e escreva asdfg, até o final da folha.

Meus dedos eram pequenos e quando eu errava a tecla eles ficavam presos entre elas. Doía muito, mas agüentei calado até o final da primeira aula. Tive mais erros do que acertos naquela uma hora que fiquei diante da máquina. Hoje ela é peça de museu.

Na atualidade as crianças com menos de dez anos sabem se conectar com a Internet e manusear um celular como se brincassem de roda - naquela época eu nem sonhava com isso. Hoje nas escolas existem máquinas de xérox, impressoras e scanners. Seria a evolução do mimeógrafo, que cheirava a álcool e soltava uma tinta azul?

Não sei se hoje o meu pai diria que para ser alguém na vida é preciso saber teclar, conhecer programas como Excel, PowerPoint e Word e ter um e-mail para distribuir currículo. Chego a me perguntar se a minha professora de datilografia se rendeu às facilidades do mundo digital e eletrônico ou ainda fica repetindo: asdfg asdfg asdfg???